Assessoria de Imprensa e Content Marketing: novas abordagens e estratégias na comunicação


Somada à sua atuação na produção de folhetins de sucesso, Nelson Rodrigues dedicou parte da carreira a fazer Jornalismo, com passagens pelos diários A Manhã, O Globo e Última Hora, cujo objetivo era o mesmo que nas novelas: contar histórias. Certa vez li um texto em que o escritor declarava sua paixão por trabalhar na editoria policial. O motivo? Escrever histórias relacionadas à paixão, pois as pessoas matam, brigam ou assaltam por causa do amor.

A literatura sempre esteve presente nos jornais, pois os profissionais que trabalhavam nos primórdios dos diários também eram escritores. Na década de 60, nos EUA, ocorreu um movimento de ruptura com a objetividade dos jornais que ditavam como regra o lead, a explicação de “quem, quando, o que, como, onde e por que” e que ficou conhecido como New Journalism. Seu precursor foi o escritor Truman Capote, autor do livro A Sangue Frio, considerado a primeira obra desse movimento. Mais tarde, o conceito chegou ao Brasil como Jornalismo Literário e marcou presença inesquecível nas páginas da revista Realidade, publicação conhecida até hoje por conta das narrativas, textos primorosos repletos de adjetivos, figuras de linguagem e riqueza de detalhes.

O movimento provou que há espaço para boas histórias inclusive onde a factualidade é o fio condutor dos diários impressos. Da mesma forma que jornalismo e literatura conquistaram o mesmo espaço nos jornais, o termo storytelling (contando histórias) usado pelos publicitários desde a década de 90 circula agora pelas agências de comunicação como uma das ferramentas para engajar o público de seus clientes através do Content Marketing, o Marketing de Conteúdo, recém-chegado ao Brasil em meados de 2011.

Muitos especialistas no assunto defendem que no Brasil os jornalistas são os profissionais melhores preparados para desempenhar o papel de Content Marketing nas Assessorias de Imprensa, pois sabem contar boas histórias e o conceito tem como objetivo aproximar marcas e consumidores por meio de várias ações, ferramentas, canais e apelo emocional. Com a aplicação do termo nas agências, o release enviado para as redações serão futuramente storytelling e os consumidores mais um ponto de contato somado às redações com as quais os assessores de imprensa dialogam todos os dias.

Essa convergência de termos e profissões acontece porque em alguns países, como Estados Unidos e Portugal, os graduados em Relações Públicas é quem exercem o papel de assessores de imprensa. Então, os RPs importaram da Publicidade e Propaganda o conceito storytelling, assim como os jornalistas trouxeram a literatura para os diários.

Independente do termo usado, as ações de comunicação das empresas ou reportagens que saibam contar uma boa história e consigam envolver o seu público através de bom conteúdo conquistam leitores, consumidores, telespectadores, a audiência em geral, em qualquer plataforma. Para ouvir uma boa história, o seu público, com certeza, estará disposto a ler mais que duas páginas de jornal, a assistir um vídeo mais longo que um comercial e a prestar atenção em uma mensagem mais longa que um jingle.

As empresas e o marketing perceberam essa importante estratégia e começou, através do storytelling, a se aproximar das pessoas e a ouvir as histórias de quem consome sua marca para entendê-lo, fidelizá-lo e criar novos produtos e campanhas. Há algo errado nisso? Não. Todo mundo deseja algo e as marcas buscam atender essas necessidades individuais. Cabe aos consumidores tomarem a decisão de se engajarem ou não. As empresas focam em vendas, mas também querem manter o relacionamento e confiança.

Falar diretamente com o seu público é um direcionamento que tem sido feito pelo Jornalismo e também pelo Marketing. Basta acompanhar o aumento de publicações editoriais segmentadas e os produtos voltados ao consumo de nicho, respectivamente. A ideia central do Content Marketing é se aproximar, falar com pessoas e viver com elas experiências e histórias.

O perfil do consumir mudou ele espera que as mensagens sejam envolventes o suficiente para chamar a atenção, pois recebemos uma quantidade imensa de informações a todo o momento. Há revistas que trazem boas histórias e utilizam recursos literários, campo de referências para os profissionais de Content Marketing. A publicação Piauí é um exemplo delas. Quando foi lançada, em 2006, chegou-se a dizer que ela seria uma “Realidade” no século XXI. Eu ainda estava na graduação quando participei de uma palestra em que um dos fundadores da Piauí, João Moreira Salles, definiu-a como Jornalismo feito com a sola do sapato sem a preocupação com o tempo, em referência às entrevistas que são realizadas pessoalmente, resultando em textos que levam o leitor ao cenário da pauta, sem a preocupação de publicá-la no dia ou hora seguinte.

Leitores, consumidores, telespectadores e internautas, gente quer saber de gente e buscam por bom conteúdo. É o comportamento natural do ser humano se envolver com o que ele já conhece, identifica e confia. O conteúdo vai ao encontro dessa necessidade que está intrínseca no ser humano e é estimulada pela comunicação.

Mariana Cruz é jornalista e diretora na Agência ERA de Comunicação e Conteúdo

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